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Um olhar infantil

E a criança? Todos falam, indagam e querem entender o mundo desses pequeninos. Porém, como ela vê o mundo?

Se perguntarmos a um adulto qual a diferença entre ele e uma criança, ele dirá que boa é essa fase da vida onde não há obrigações, responsabilidades, muito menos, preocupações. Mas, quer tarefa mais árdua que crescer? Descobrir o mundo dia a dia é a tarefa mais difícil que enfrentamos na vida. Pena que crescemos e esquecemos disso tudo.

Lembram no primeiro capítulo do livro “O Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry, quando o narrador da história nos mostra um desenho que fez quando menino, onde uma jibóia havia engolido um elefante e, indagados sobre o significado do desenho, os adultos diziam que era um chapéu? Então, anos depois, o único que respondeu o significado do desenho foi o Pequeno Príncipe. Respondeu porque é uma criança e enxerga o mundo com esse olhar infantil.

No livro “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaarder, há um trecho muito interessante sobre a capacidade das crianças de se admirarem com as coisas do mundo. Por se tratar de um belo texto, aqui está:

“Certa manhã, mamãe, papai e o pequeno Thomas – a esta altura já com dois ou três anos – estão sentados na cozinha tomando o café. De repente, mamãe se levanta, vira-se para a pia e então... bem, então papai começa a flutuar sob o teto da cozinha.
O que você acha que Thomas diria? Talvez ele apontasse o dedo para seu pai e dissesse: “Papai voando!”.
Na certa Thomas ficaria espantado, mas ficar espantado não é novidade para ele. Afinal, papai faz tantas coisas estranhas que, aos seus olhos, um pequeno vôo sobre a mesa do café da manhã não faz lá muita diferença. Todos os dias, por exemplo, seu pai faz a barba com um aparelhinho esquisito, às vezes sobe no telhado e vira a antena da TV, outras vezes enfia a cabeça no compartimento do motor do carro e sai com a cara toda preta lá de dentro.
Agora é a vez da mamãe. Ela ouviu o que Thomas disse e vira-se resoluta. Como você acha que ela reagiria à visão de seu marido voando sobre a mesa da cozinha?
Na mesma hora ela deixa cair o vidro de geléia e solta um grito de pavor. Talvez ela precise de um médico, depois que papai voltar a sentar-se em sua cadeira (Há muito tempo ele deveria ter aprendido a se comportar à mesa!).
Por que será que Thomas e mamãe reagem de forma tão diferente? O que você acha?
É uma questão de hábito. (Grave bem isso!) Mamãe aprendeu que as pessoas não podem voar. Thomas não. Ele ainda não tem muita certeza do que é possível e do que não é possível neste mundo.
Mas e quanto ao mundo propriamente dito, Sofia? Você acha que ele é possível? O mundo também fica pairando livremente no espaço.
O triste de tudo isto é que, à medida que crescemos, nos acostumamos não apenas com a lei da gravidade. Acostumamo-nos, ao mesmo tempo, com o mundo em si.
Ao que tudo indica, ao longo da nossa infância nós perdemos a capacidade de nos admirarmos com as coisas do mundo. Mas com isto perdemos uma coisa essencial – algo de que os filósofos querem nos lembrar. Pois em algum lugar dentro de nós, alguma coisa nos diz que a vida é um grande enigma. E já experimentamos isso, muito antes de aprendermos a pensar.”

É essa capacidade de nos surpreender com o mundo que os programas, para falar diretamente com as crianças, não podem deixar de lado. Só assim os programas infantis merecem esta denominação. Na verdade, nenhum de nós deve deixar isso de lado, pois só assim compreenderemos o mundo das crianças e nos encontraremos com nós mesmos e com a criança que adormece dentro de nós.

A responsabilidade de pais e mestres
Os programas educativos
Imaginário e Pensamento
Um olhar infantil

Bibliografia

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